A Greve dos Caminhoneiros, a Gestão de Crises e as Lições Aprendidas

A Greve dos Caminhoneiros, a Gestão de Crises e as Lições AprendidasA Greve dos Caminhoneiros, a Gestão de Crises e as Lições Aprendidas

Se o acordo entre o governo e os líderes do movimento dos caminhoneiros for de fato respeitado, esta greve está próxima do seu final, mas não as consequências dela que ainda levarão vários dias até que tudo volte ao normal, com várias sequelas pelo caminho.

 

Quais são as lições que podemos tirar desta crise e aplicá-las no futuro?

  1. Crise latente: se as notícias que estão sendo veiculadas forem, de fato, verdadeiras, o governo sabia da possibilidade desta manifestação desde o final do ano passado e, aparentemente, não fez nada, ou muito pouco, para evitar que esta paralisação acontecesse. Uma falha grave de omissão, de desgoverno e que no mundo da gestão de crise chama-se de “Crise Latente”, aquela crise que está lá, nos incomodando, mas ainda assim não fazemos nada a respeito, vamos deixando para depois.   Não decidir é uma das formas de decidir, deixar que o tempo ou a situação se encarreguem de decidir por nós, o que normalmente só agrava a crise, seja ela pessoal, empresarial ou governamental.
  2. Comando frágil: numa crise de graves proporções como a que estamos vivenciando agora é fundamental que a liderança e seu comitê de crise, que estão tentando controlar a crise tenham, no mínimo, a autoridade, o respeito, e que assim seja percebida pelas partes interessadas, na mesma dimensão que a crise instalada. Uma liderança fraca, frágil, com idas e vindas, com falas e desmentidos, também só agrava a crise.   Um exemplo de liderança e percepção de liderança foi Margaret Thatcher na greve dos mineiros ingleses de 1984 a 1985.
  3. Decisões: normalmente tendemos a dizer que “fizemos a melhor escolha” ou “tomamos a melhor decisão”. Esta é uma forma otimista de apresentar a nossa decisão.   Uma outra forma, talvez mais realista, seria “optamos pela alternativa menos pior”, uma vez que qualquer decisão tomada terá suas vantagens e desvantagens.   E numa crise, em situações de altíssimo stress, as decisões normalmente são pela alternativa menos pior ou, o que é mais grave ainda, pela alternativa mais confortável para a liderança e seu comitê de crise.   Junte-se a alternativa mais confortável com uma liderança frágil ou não respeitada para deixarmos aberta a possibilidade de novas ondas de choque, como as de um terremoto.   Já há sinais que outras categorias se mobilizam para novas paralisações aproveitam-se do momento de fragilidade das nossas lideranças.
  4. Concessões: numa crise teremos, obrigatoriamente, que fazer concessões. No mundo empresarial talvez iremos perdoar algumas dívidas de nossos clientes, aceitar prorrogações de prazos, pagar algumas multas etc. que no dia a dia seriam inaceitáveis.   Estas concessões, ou perdas se preferirem, foram estrategicamente quantificadas e mapeadas, alinhadas ao apetite a risco da nossa organização.   Isto é, toda esta estratégia está associada a quanto, como, onde e o que estamos dispostos a ceder ou a perder.   Como riqueza não se cria espontaneamente (https://strohlbrasil.com.br/2018/05/25/resiliencia-e-a-greve-dos-caminheiros-5%E2%81%B0-dia/) se alguém ganha, alguém perde.   Ao conceder, ou a ceder, às reivindicações dos grevistas (não estamos aqui julgando se a greve é justa ou não) alguém irá pagar a conta, no caso a sociedade brasileira com todos os impactos diretos da greve e os subsequentes que ainda virão, como aumentos de preços ou pelo aumento dos custos dos fretes ou pelo aumento dos impostos para compensar os benefícios concedidos.
  5. Lições aprendidas:

Os participantes desta greve, sejam eles espontâneos – motoristas autônomos – ou não, conseguiram tudo, ou quase tudo, das suas pautas de reivindicações ao cortarem linhas vitais de abastecimento do Brasil (se ainda não leram, leia Sun Tzu e a Arte da Guerra) num cenário de liderança frágil.   Aprenderam que tem, e continuarão tendo, por um bom tempo, o comando – a liderança – da situação e outras categorias irão se aproveitar desta situação num futuro próximo.   Não será nenhuma surpresa se novas greves setoriais, inclusive de caminhoneiros novamente, acontecerem nos próximos meses, numa sistemática nefasta de melhoria contínua às avessas.

Desejo, realmente, que tenhamos aprendido, pelo menos percebido, o quanto somos vulneráveis – pouco resilientes – num cenário de crise nacional de grandes proporções.   Acreditar que Deus é brasileiro não é suficiente!   Que esta greve sirva, pelo menos, para o aumento da percepção da importância da discussão do tema sociedades resilientes e como se preparar para interrupções significativas nas nossas infraestruturas que com certeza virão.

Crises, de forma semelhante a recordes, mais cedo ou mais tarde serão superadas e serão cada vez mais danosas quanto menor for a nossa capacidade de enfrentá-las – resiliência.

Sidney R. Modenesi, MBCI
Entusiasta de sociedades resilientes

1 Trackbacks & Pingbacks

  1. A Greve dos Caminhoneiros, a Gestão de Crises e as Lições Aprendidas – Versão Final, Será? - +55 11 5583-0033

Comments are closed.