Resiliência e a Greve dos Caminheiros – 5⁰ Dia

Resiliência e a Greve dos Caminheiros - 5⁰ DiaResiliência e a Greve dos Caminheiros – 5 Dia

Ontem, depois que publicamos o nosso post Resiliência e a Greve dos Caminheiros recebemos alguns questionamentos, alguns de teor político os quais continuaremos a não comentar e outros, a maioria, sobre como a nossa resiliência poderia ser melhorada e o que fazer no cenário atual.

Bem, vamos por partes.

Resiliência não é uma capacidade que se consegue da noite para o dia.   O desenvolvimento de uma sociedade resiliente demanda dezenas, centenas de anos.   Sociedades, ou países se preferirem, resilientes são, na sua grande maioria, países que tem a sua sobrevivência colocada a prova repetidas vezes.   Países que todos os anos tem invernos intensos; sofreram ou participaram de guerras; sofrem com fenômenos naturais: como terremotos, furações, vulcões; atentados terroristas etc. tendem a ser, como já dito, sociedades mais resilientes.

O que não é caso do Brasil.   Nós não nos encaixamos em nenhuma dessas categorias.   Nosso cenário é de clima ameno na maioria do pais; não sofremos desastres naturais, exceto os deslizamentos de terra todos os verões; comida abundante (embora parte da população esteja abaixo da linha de pobreza); a nossa última participação intensa numa guerra foi na do Paraguai há mais de 100 anos; nossa participação na II Guerra Mundial foi marginal, enfim, nossa sociedade raramente é posta a prova, exceto pelo nosso sistema político de gestão.

O que poderíamos fazer agora, depois de 5 dias da greve dos caminhoneiros?

Muito pouco.   Como a greve corta uma das linhas mestras de abastecimento do país a falência de todos os produtos e serviços é uma questão de tempo.   Vi ontem num dos jornais da noite uma senhora comprando 45 kg. de arroz com medo do desabastecimento.   Motoristas correram para encher os tanques dos seus veículos, alguns aceitando pagar R$ 10,00 o litro de combustível.   Outros encheram galões para estocar combustível em casa, o que além de ser um grande risco é proibido por lei.   São vários os exemplos.   Ao fazerem isto estes consumidores estão acelerando o desabastecimento.

No ponto de vista organizacional o home office, ou a utilização de escritórios compartilhados poderia ser uma solução mitigatória, por alguns dias.   Para outras atividades que dependam de transportes, sejam de pessoas ou de material, não há o que fazer agora.

Medidas preventivas devem ser desenvolvidas, implantadas e testadas antes do incidente e não durante.

Como aumentar a resiliência nos transportes?

Privilegiamos ao longo dos últimos anos o transporte rodoviário em detrimento do transporte ferroviário e de cabotagem, fluvial ou marítima, com custos por tonelada mais baratos.   Mais de 60% de toda a nossa produção é feita por caminhões.   Em épocas de estagnação econômica, faltam fretes e sobram caminhoneiros lutando por uma carga, os preços dos fretes caem e os custos aumentam com o aumento dos combustíveis.   É lei de mercado!!!

Dos 10 maiores produtores mundiais de caminhões elétricos, somente duas são de fabricantes tradicionais, as demais têm, todas, 5 anos de vida ou menos.   Quantas delas estão presentes ou pretendem estar presentes no país?   Qual o plano estratégico do país para utilizar transportes que utilizam fontes alternativas de energia e depender menos de combustíveis fósseis?   Pois é, e vamos ficando cada vez mais para trás no ranking das economias mais competitivas.

Geração de riquezas e livre mercado

Algumas riquezas brotam do chão como petróleo ou minérios, mas em geral riquezas são fruto de trabalho intenso.   E para uma determinada quantidade de riqueza de um país (PIB), se alguém ganha, alguém perde.   Fala-se em redução na carga tributária do óleo diesel.   Se esta receita está contabilizada no caixa do governo então esta perda de receita terá, obrigatoriamente, que vir de alguma outra fonte de receita, através de um novo imposto, ou do aumento da alíquota de algum imposto existente.   Alguém terá que pagar a conta.

A Petrobras é uma empresa de capital aberto, com o maior acionista sendo o governo brasileiro.   Empresas abrem o seu capital para conseguir mais fundos para poder expandir seus negócios e para isso remuneram os seus acionistas através da distribuição do lucro – dividendos.

Então, se a Petrobras não repassar o aumento dos seus custos nos seus produtos ela estará reduzindo a sua lucratividade e deixando de ser interessante para os seus acionistas.   A Petrobras, num passado recente, já experimentou sérios prejuízos por ter sido utilizada como mecanismo de controle da inflação, não repassando aumento de custos e absorvendo grandes prejuízos.   A lei de mercado é cruel.

Síntese

Nossa sociedade, nosso país, não está adequando sua infraestrutura para a 4ª Revolução Industrial que já está aí, estamos totalmente despreparados para o livre mercado global, não sabemos operar sobre as regras da Lei da Oferta e da Procura e o pior de tudo, muitos ainda acreditam que dinheiro dá em árvores, insistindo em subsídios.

Não é possível ser resiliente num cenário assim.

Sidney R. Modenesi, MBCI
Entusiasta de sociedades resilientes

 

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